Solidão etílica

Me afoguei em tinto barato. E junto também se afogaram as borboletas que no meu estômago habitavam. Embebidas na minha asfixia sentimental, morreram todas as saudades. Pobre das boas lembranças que nunca aprenderam a nadar, foram as primeiras a desfalecer. Quando o álcool já estava para transbordar e atingiu o desatinado coração, queimou feito combustível. O vinho acendeu a miserável solidão que agora estava por entre minhas entranhas. Como queimava o desamor.

Eu dirijo meu carro na contramão,
procurando você nas ruas da cidade,
vejo os olhos que passam lentos,
tantos rastros ficando pra trás.

Eu não tenho culpa da minha obstinação,
é o vazio que me inquieta e me consome,
até às multidões solitárias e sem direção.

Um dia vou abrir a porta do meu carro,
te ver entrando corpo a dentro cansado,
teus olhos sorridentes disfarçados,
vou me me aposentar da solidão.

o fio do telefone que parece ser da mesma espessura do fio de saudade

dessoante

o ímpeto de saudade que conecta cada ser humano
deixando todos presos um ao outro 
mas nunca juntos
nunca de uma forma que minha saudade seja de você 
e a sua de mim
sempre estivemos sozinhos no beco da vida
eu em você
você em outro 
ninguém se pertence 
o silêncio das saudades das nossas almas 
invade a casa do vizinho pela conexão do fio do telefone 
o nosso fio que insiste em ficar mudo 
e o vizinho que nunca para de tocar
o barulho da casa vazia dele 
vazia e cheia de saudade
o silêncio das nossas almas cheias de orgulho 
o barulho do nosso silêncio
o barulho das ruas, cheias de corpos vazios caminhando
berrando palavras inexistentes 
saudade
antes barulhenta 
agora silêncio que transborda
nos olhos.

a.

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MANCHETE: Corpo de puta qualquer é encontrado esquartejado numa esquina qualquer

Cada corpo que deixa minha cama leva um pedaço meu dentro do peito ou dentro das calças. Nenhum nome sai desse colchão sem carregar uma letra do alfabeto infinito em meu cadáver. E são tantos nomes, querido. Já me entreguei tanto e de mim mesma quase não resta nada. O pouco que sobrou estou mendigando pra ter o que lhe entregar. Eles chegam e involuntariamente arranco de mim a miséria que tenho pra oferecer. Já me tomaram do coração às tripas e ainda ousam voltar pra buscar um pouco da carcaça que ficou. Duzentos e seis osso e a alma: foi o que restara. Distribuo o esqueleto na ânsia de que entre por aquela porta á tempo e encontre a minha-sua alma inviolada. Se apresse, my dear.

Douleur à la troisième personne

ela toca johnny cash nua pra ver se alguma nota penetra sua pele
ela dedilha o violão com tanto cuidado quanto tocava seu corpo
ela deixa o gato arranhar suas pernas pra ver se sente
i’ve hurt myself today, garota. i’ve hurt myself today to see if I still feel

ela parou de comer e passa o dia esperando a fome chegar
esperando qualquer coisa chegar e arrombar aquela porta, aquele corpo
nem que seja a luz do sol invadindo a janela pra esquentar seu cadáver
what have I become, my sweetest friend?

ah garota, não se perca da sua poesia. escreva nem que seja pra
falar da melancolia, do ralo do banheiro, da pia entupida
fala que eu te destrocei em pedaços e que você me odeia
fala que quer devorar a minha alma, comprar uma arma e
apontar na minha direção, mas não enfia esse cano na garganta.

diz que vai me destruir, mas não se destrua quando essa estrófe acabar
levanta dessa cama, nem que seja para vir
e disparar essa bala de desalegria na minha direção.

Verborragia

No meio de tanta puta ensebada e rastros fedidos de mijo, ele dobrou a esquina com seu sorriso assassino. O mundo hospedado por egocentrismos congelou enquanto meus sentidos foram baleados pelos dentes de um Fulano-Sem-Nome. Aquele corpo era tão vivo que eu podia sentir a morte que definhou minha alma ressuscitando na parte mais externa da minha pele e chegando ao âmago do meu ser. A vida dentro de mim durou até ele atravessar meu caminho e sua silhueta desaparecer do meu campo de visão.

Foram dois ou três meses de busca obsessiva pelo Fulano-Sem-Nome: eu cambaleava pelas ruas e achava que todo bêbado caído na calçada era ele. Morria um pouco a cada passo e enlouquecia a cada tropeço. Parei de comer, de beber, de fuder. Nenhum prazer material saciava o buraco negro que começava no centro de minha barriga e me engolia por dentro, desfigurando a casca morta que me tornei com o passar das semanas.

Tentei cartomante, detetive particular, macumba e até um tal deus.. Nada resolvia. Como um animal selvagem, criei hábitos noturnos e os dias se tornaram monotemáticos. Passava o dia na cama e, quando a lua saía pra dançar, eu invadia a rua a procura do Fulano-Sem-Nome.

Toda vez que tinha um tempo livre me perguntava qual seria o seu nome, a rua onde ele dobraria esta madrugada, se ele teria tomado um porre e sido atropelado semana passada.. Eu até criei uma personalidade pra ele. Escolhi livros que teria lido, lugares que frequentava, como gostava do banho. Até me apaixonei pelas mulheres que imaginei que ele paquerava. Cheguei ao ponto de um dia me olhar no espelho do banheiro e acreditar que era ele. Eu estava tão obcecada que acabei me tornando ele.

Foi essa a primeira triste vez que me apaixonei na vida (ou morte?).  Ainda me lembro da sensação psicótica da época: toda vez que me deparava naquela esquina que o vi, ia andando devagar na esperança de que ele esbarrasse em mim. Mas o desgraçado nunca aparecia e eu de tanto diminuir o passo acabava estática. Só conseguia sentir meu coração gladiar com a dor por mais um batimento. Eu experienciei espadas, foices e tochas tão grandes saindo pelo meu peito que eu pedia a esse deus que nem mesmo acreditava: “não me deixe morrer antes de vê-lo só mais uma vez”.

O pseudo romance só terminou quando percebi que já estava morta. Era apenas um amontoado de matéria inorgânica perambulando entre madrugadas na busca infeliz de um motivo pra reviver. Foi dessa besteira melodramática que herdei o cinismo com a vida. Aprendi a amar menos também. Foi uma pena! Mas permanecer no cenário ingênuo que estava antes do Fulano-Sem-Nome teria me sido fatal. Ainda hoje fico assustada com o que um sorriso bonito perdido na madrugada pode fazer a um coração já morto.