Verborragia

No meio de tanta puta ensebada e rastros fedidos de mijo, ele dobrou a esquina com seu sorriso assassino. O mundo hospedado por egocentrismos congelou enquanto meus sentidos foram baleados pelos dentes de um Fulano-Sem-Nome. Aquele corpo era tão vivo que eu podia sentir a morte que definhou minha alma ressuscitando na parte mais externa da minha pele e chegando ao âmago do meu ser. A vida dentro de mim durou até ele atravessar meu caminho e sua silhueta desaparecer do meu campo de visão.

Foram dois ou três meses de busca obsessiva pelo Fulano-Sem-Nome: eu cambaleava pelas ruas e achava que todo bêbado caído na calçada era ele. Morria um pouco a cada passo e enlouquecia a cada tropeço. Parei de comer, de beber, de fuder. Nenhum prazer material saciava o buraco negro que começava no centro de minha barriga e me engolia por dentro, desfigurando a casca morta que me tornei com o passar das semanas.

Tentei cartomante, detetive particular, macumba e até um tal deus.. Nada resolvia. Como um animal selvagem, criei hábitos noturnos e os dias se tornaram monotemáticos. Passava o dia na cama e, quando a lua saía pra dançar, eu invadia a rua a procura do Fulano-Sem-Nome.

Toda vez que tinha um tempo livre me perguntava qual seria o seu nome, a rua onde ele dobraria esta madrugada, se ele teria tomado um porre e sido atropelado semana passada.. Eu até criei uma personalidade pra ele. Escolhi livros que teria lido, lugares que frequentava, como gostava do banho. Até me apaixonei pelas mulheres que imaginei que ele paquerava. Cheguei ao ponto de um dia me olhar no espelho do banheiro e acreditar que era ele. Eu estava tão obcecada que acabei me tornando ele.

Foi essa a primeira triste vez que me apaixonei na vida (ou morte?).  Ainda me lembro da sensação psicótica da época: toda vez que me deparava naquela esquina que o vi, ia andando devagar na esperança de que ele esbarrasse em mim. Mas o desgraçado nunca aparecia e eu de tanto diminuir o passo acabava estática. Só conseguia sentir meu coração gladiar com a dor por mais um batimento. Eu experienciei espadas, foices e tochas tão grandes saindo pelo meu peito que eu pedia a esse deus que nem mesmo acreditava: “não me deixe morrer antes de vê-lo só mais uma vez”.

O pseudo romance só terminou quando percebi que já estava morta. Era apenas um amontoado de matéria inorgânica perambulando entre madrugadas na busca infeliz de um motivo pra reviver. Foi dessa besteira melodramática que herdei o cinismo com a vida. Aprendi a amar menos também. Foi uma pena! Mas permanecer no cenário ingênuo que estava antes do Fulano-Sem-Nome teria me sido fatal. Ainda hoje fico assustada com o que um sorriso bonito perdido na madrugada pode fazer a um coração já morto.

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