O suicídio que deu errado

Pulei do prédio mais alto da cidade
cai num beco sujo fedendo a maldade
onde as putas conversam com a lua
e se transformam em literatura
para os pseudo poetas embriagados
Que vomitam no mundo seus sentimentos mais gelados
Hospedei a barba de um cigano bonito
entre minhas coxas num gozo infinito
depois saí bailarina por algumas janelas
encantando os esgotos por entre as vielas
e conheci um rato sorridente
que me contou: os poetas mentem
ilusionam e não sentem
Com lentes caleidoscópicas assisti
o show do moreno que ainda sorri
dentro de um corpo doente e grotesco
que quase o levou a morte
mas lembrei-me do rato sorridente e resolvi voltar
para a nuvem reflexiva e o ácido que me cura
dos germes que não consigo matar
Quantas coisas essa noite eu vivi
Ainda bem que hoje eu não morri…
Psicografei duas dúzias de palavras
vomitadas pela alma que sucumbiu ao abismo que é amar
e alimentei a esquizofrenia que se apresentou minha amiga
velha conhecida do poeta amarelo que também teve a alma sucumbida
ele se abriga em algum lugar no norte da lua, mas sempre volta para me visitar.
Quando chega por entre madrugadas lisérgicas
Prova do meu pecado e escava meus peitos fartos
Invoca meus demônios e os exorciza enquanto o mundo sóbrio cala
pra ouvir toda a luxúria dos amantes no meu gemido
depois vai embora e me sorri á luz de um satélite distante.
E esse poeta amarelo, á tanto meu amigo
possuiu um corpo bailarino e andarilho
e reaprendeu a bailar comigo
(eu nunca estou só, mon ciel.)

À puta que arrancou meu coração e o guardou na última gaveta do inferno

Observo no espelho um par de negros olhos entorpecidos de des-amor. Todo o desespero dos corações finados dentro do peito de uma Maria-infeliz.

A linha tortuosa que vai da retina até o espelho se perde na esperança de que meus olhos ainda se embaracem aos seus. Essa mesma linha me puxa de volta ao inferno das palavras mortas que enterrei dentro do vazio que é sentir. Depois se enlaça no meu pescoço e falha numa tentativa estúpida de suicídio imagináriovisual. O tempo corre no fundo do cenário, meio desfocado meio obliterado. E eu procuro o sentido dele ainda passar.

Eu escrevo sobre o sangue ácido que escorre desses olhos e a dor que esvai em cada expiração, na descrente espera de te aniquilar dos meus pensamentos. Mas você é o sangue. Você é a dor.

Enquanto os segundos passam, mergulho em meu inferno e definho aos poucos. Assisto o sal do mar lacrimoso escorrer por esse rosto sem identidade e chegar até os lábios entupidos de falsas promessas. Peço um último beijo ao meu demônio favorito. Que o final comece.

O sangue dos meus olhos se mistura ao vermelho do meu batom, e comemoro mais uma catástrofe: o tempo ainda passa.

fodi em 1969

com um poeta chamado Sem Nome

Sem Nome fedia a bebida

e tinha gosto de cigarro barato

Sem Nome tinha o diabo nos olhos

e o paraíso dentro das calças

ele rasgou meu pudor

e mergulhou no meu corpo

subiu ofegante a superfície

depois de uns 10 minutos

já morto

O poeta me rendeu dois poemas

que vomitei no banheiro

um câncer, uma calcinha rasgada

e um orgasmo gritado.