À puta que arrancou meu coração e o guardou na última gaveta do inferno

Observo no espelho um par de negros olhos entorpecidos de des-amor. Todo o desespero dos corações finados dentro do peito de uma Maria-infeliz.

A linha tortuosa que vai da retina até o espelho se perde na esperança de que meus olhos ainda se embaracem aos seus. Essa mesma linha me puxa de volta ao inferno das palavras mortas que enterrei dentro do vazio que é sentir. Depois se enlaça no meu pescoço e falha numa tentativa estúpida de suicídio imagináriovisual. O tempo corre no fundo do cenário, meio desfocado meio obliterado. E eu procuro o sentido dele ainda passar.

Eu escrevo sobre o sangue ácido que escorre desses olhos e a dor que esvai em cada expiração, na descrente espera de te aniquilar dos meus pensamentos. Mas você é o sangue. Você é a dor.

Enquanto os segundos passam, mergulho em meu inferno e definho aos poucos. Assisto o sal do mar lacrimoso escorrer por esse rosto sem identidade e chegar até os lábios entupidos de falsas promessas. Peço um último beijo ao meu demônio favorito. Que o final comece.

O sangue dos meus olhos se mistura ao vermelho do meu batom, e comemoro mais uma catástrofe: o tempo ainda passa.

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fodi em 1969

com um poeta chamado Sem Nome

Sem Nome fedia a bebida

e tinha gosto de cigarro barato

Sem Nome tinha o diabo nos olhos

e o paraíso dentro das calças

ele rasgou meu pudor

e mergulhou no meu corpo

subiu ofegante a superfície

depois de uns 10 minutos

já morto

O poeta me rendeu dois poemas

que vomitei no banheiro

um câncer, uma calcinha rasgada

e um orgasmo gritado.